Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Contos revisitados (53)

 

53AsPrimeirasFérias

Teve esse vocação desde criança, quando

andava na escola ainda de bibe

 

AS PRIMEIRAS FÉRIAS

 

1

 

     O que muita gente chama de destino, outra tanta de fado, acompanha qualquer pessoa pela vida fora, desde o nascimento até à morte. Pode passar despercebido, mas é como a sombra de quem caminha contra o sol — imagem difusa permanentemente atrás do viandante, que existe apesar de não ser vista.

     Muitas vezes, esse destino revela-se sem disfarce, e o homem (ou a mulher) a que o mesmo diz respeito dá conta de que está a ser como que conduzido por uma mão oculta. Portanto, por algo de que não consegue libertar-se, mesmo quando se esforça e faz tudo contra isso.

     Alguma vez nas suas existências tão diferentes, que decorriam normalmente, Maria da Glória e Joaquim Alberto imaginaram que seriam um dia os protagonistas principais de um acontecimento futuro comum? Alguma vez imaginaram que se encontrariam face a face, e que nesse momento, ele médico, ela criada de servir, seriam cúmplices numa determinada ocorrência?

 

2

 

     Teve essa vocação desde criança, quando andava na escola ainda de bibe.

     A sua brincadeira de faz-de-conta preferida era ele fingir que auscultava o irmão Guilherme, forçado a simular uma gripe.

     Encostando o ouvido ao peito do presumível e prestativo doente, Joaquim Alberto mandava:

     — Faça o favor de tossir.

     As palavras, o tom da voz, os gestos eram precisamente os mesmos que via no médico de família, o doutor Fernando Antunes, quando este era chamado a casa para tratar de alguém.

     — Outra vez, faça o favor.

     Guilherme obedecia, mas sem perceber bem por que motivo o mano mais velho lhe falava na terceira pessoa e o mandava tossir repetidamente.

     Sempre de olho atento ao que se passava com os seus «dois diabretes», como dizia, a mãe apanhava os filhos naquela brincadeira.

     Observava então com ar de espanto:

     — Ora, ora, o que é que os meninos estão para aí a fazer?

     Julgando-se repreendido, Guilherme esclarecia de imediato:

     — O Quim é que sabe. Ele anda sempre com estas manias...

     A mãe sorria. Também a fazer-de-conta e parecendo incomodada, perguntava ao visado:

     — Vá, explica-te lá, o que é que se te meteu na cabeça?

     Joaquim Alberto não se envergonhava do que estava a fingir. Muito menos de lembrar mais uma vez que haveria de ser médico qualquer dia, quando fosse homem:

     — É o que quero ser.

     Não tinha qualquer dúvida:

     — E vou ser!

     A mãe apoiava calorosamente a pretensão:

     — Muito bem! Muito bem!

 

3

 

     Quem nunca teve meia hora sequer para o jogo do faz-de-conta nem para outras diversões do género, foi Maria da Glória, quarta filha de um casal humilde, que vivia num lugarejo a poucos quilómetros de Loures.

     Nesses meados do século passado, tanto a vila como os arredores faziam parte do que os geógrafos designam por «mundo rural». E este opunha-se naquela região do país ao «mundo urbano» de Lisboa, não muito distante, mas do qual ninguém percebia a proximidade nem sentia a influência.

     Ainda criança, Maria da Glória acompanhou os pais e os irmãos no cultivo da terra, amanhando uma courela herdada dos avós. Era aí que todos iam buscar o único rendimento com que podiam contar, aliás parco e contingente, por depender mais dos caprichos da meteorologia do que do empenho dos proprietários.

     Com o pai, aprendeu a arte de como colher o que semeava, fosse o milho ou as couves, o feijão ou as batatas, todos com épocas próprias de granjeio, que deviam ser respeitadas. Com a mãe, aprendeu a ordenhar a vaca Celestina, de cujo úbere tirava o leite espesso e quente, que dava para beber ao pequeno-almoço, bem como para fazer queijo e manteiga.

     Antes de completar treze anos, nada disso lhe era estranho ou a perturbava. Ela sabia como proceder em cada situação, e tão bem, com tanto acerto e oportunidade, que espantava até os mais velhos e experimentados no assunto.

     — A garota é espertalhona e dá conta das coisas como ninguém — confessavam os irmãos entre si, revelando a sua surpresa. E também a sua pontinha de inveja.

     Talvez porque não haviam sido assim, acrescentavam com algum azedume:

     — Uma finória, um azougue!

     Ou então:

     — Uma sabichona!

     Maria da Glória cresceu, tornou-se mulher, e uma mulher belíssima, que dava gosto ver. A pele tostada pelo sol, os olhos negros e fundos, os cabelos soltos sobre os ombros, os seios vincados sob a blusa, as ancas e as pernas firmes, toda ela tinha de atrair a atenção dos rapazes casadoiros.

 

4

 

     Dizia que haveria de ser e foi realmente. Joaquim Alberto concluiu o liceu, fez a universidade e era médico aos vinte e cinco anos.

     Quando começou a exercer a profissão num hospital e teve de contactar ao vivo com doenças e doentes, percebeu depressa que entre o seu faz-de-conta de criança e a «realidade concreta», a «realidade real», como observava enfaticamente, havia uma di-ferença enorme.

     Pôs então à prova a sua vocação e confirmou que não se enganara. Para o que tinha jeito de facto, aquilo que gostava mesmo de fazer, era combater o sofrimento, debelando o mal, fosse lá qual fosse e custasse lá o que custasse. Procurou isso logo no primeiro dia e ao primeiro diagnóstico, que falhou rotundamente.

     Lembrava-se bem do caso.

     Tentara tratar alguém de uma insuficiência hepática aparentemente benigna, mas que fora fatal. Por causa desse equívoco, ou melhor, desse erro, o paciente morrera — e com essa morte, ele aprendera três lições: que no quotidiano de quem enfrenta um problema, nem tudo o que parece é; que a dúvida sistemática de Descartes, tentando inquirir sobre a veracidade das coisas, deve estar sempre presente; que até os erros irreparáveis, capazes de levar ao falecimento de alguém, podem evitar enganos futuros, se são devida e oportunamente lembrados.

     Qualquer médico merecedor desse título tinha de respeitar tais regras, se pretendia evitar o risco de se transformar num profissional incompetente. Ou num mercenário do próprio ofício, pensando então mais no valor dos honorários do que na cura das enfermidades.

     Joaquim Alberto pensava e procedia assim. E mais: não só punha em prática o que pensava, como ainda desenvolvia com cada doente uma espécie de cumplicidade nas terapêuticas que aplicava.

 

5

 

     Com toda a sua formosura, Maria da Glória não podia de facto escapar à atenção dos rapazes.

     Como não escapou a Mário Soco Pronto — que a desvirginou e lhe roubou a honra.

     Mário trazia a alcunha de «Soco Pronto» já da escola, por andar sempre aos murros com os colegas. A professora Maria Efigénia fora quem achara o epíteto adequado, quando numa manhã de março, no pátio do recreio, viera em socorro de um aluno que estava a ser batido sem dó nem piedade.

     — Oh, rapaz, tu não tens emenda! És mesmo um brigão, um soco pronto.

     Com toda a sua autoridade, metera-se de permeio entre ambos, de mão levantada e ameaçando:

     — Para já com isso! Tu não ouves? Queres que te puxe as orelhas?

     A alcunha de «Soco Pronto» pegara de imediato, até porque o visado se havia envaidecido com a designação e não levantara a respeito qualquer reparo. Ele gostava de ser temido e aquela designação vinha mesmo a calhar.

     Não certamente por ser brigão e desordeiro, mas por ter um físico galante, de que se orgulhava também, Mário povoava os sonhos de muitas raparigas do lugar.

     Ainda antes de completar dezoito anos, enquanto rodopiava ao ritmo de uma valsa na feira de Santo Isidro, Maria da Glória apaixonou-se por ele perdidamente.

     Perdidamente de facto, porque foi desflorada, abandonada e ficou grávida.

     Há cinquenta ou sessenta anos nas aldeias de Portugal, uma mulher solteira engravidar e dar à luz um filho era algo de inaceitável. Como se declarava na altura, a «desgraçada» que desse esse «mau passo» seria ostracizada por parentes e amigos, muitas vezes até pelos próprios pais, que não perdoariam tal transgressão.

     Desprezada por todos, se não desesperava ao ponto de se afogar num rio ou de se atirar a um precipício, fugia para algum lugar, abandonando de vez a sua terra. Arrostando com dificuldades de monta e contando só consigo, era lá que escondia a sua vergonha e lutava pela sua sobrevivência.

     Foi o que Maria da Glória fez, sem se despedir de ninguém.

  Pela calada da noite, pegou na trouxa e abalou para Lisboa, na esperança de encontrar aí qualquer abrigo onde ficar.

 

6

 

     Todas as manhãs, repetindo a rotina de há muitos anos, Joaquim Alberto levantava-se cedo, calçava os chinelos, vestia o roupão colocado de véspera aos pés da cama e ia até à cozinha. No fogão a gás, aquecia o leite, que vertia a seguir para uma chávena, onde misturava uma colher de café solúvel. Sem pressa e sempre de pé, ouvindo o cão do vizinho ladrar no quintal, tomava o primeiro pequeno-almoço.

     Exatamente: o primeiro, porque o segundo, depois do banho e vestido já para sair, tomava-o na sala de jantar, sentado à mesa: bastante mais substancial, onde nunca faltavam os ovos mexidos com bacon, a manteiga, o queijo fresco e a compota de laranja da sua preferência.

     Solteiro, sem ter mulher nem filhos a quem dar um beijo de despedida, metia-se no automóvel e partia para o hospital, onde chegava vinte minutos mais tarde.

     Às nove horas, para surpresa dos colegas e das enfermeiras com que trabalhava na especialidade, andava já de bata branca e estetoscópio ao pescoço a ver os doentes que acompanhava. Não apenas a vê-los, mas também a confortá-los com algumas palavras de ânimo:

     — Então, bom dia! Dormiu bem? Melhorzinho, não está?

     Ele mesmo respondia à pergunta:

     — Claro que está. Não tarda muito, vai para casa.

     Esboçando um sorriso mais de simpatia do que de convicção, o paciente mostrava-se agradecido:

     — Obrigado, senhor doutor. Muito obrigado.

     Joaquim Alberto concluía:

     — Pois é. Está aqui, está fino!

     Não saía do quarto sem o comentário do costume:

     — Pronto para outra! Vai ver...

 

7

 

     Com o apoio de uma ordem religiosa vocacionada para o socorro dos indigentes, Maria da Glória deu à luz o filho tão amargamente esperado. Ainda pela influência da mesma congregação, foi servir como criada para casa de uma família numerosa, que se condoera de tantas dificuldades e de tamanho abandono.

     Sem exagero nem metáforas, experimentou então uma existência de escrava. De escrava sim, porque todos os dias, pela semana fora, com domingos e feriados, trabalhava sem descanso.

     O medo de perder o emprego, de voltar à situação por que passara, de se ver novamente sem casa onde morar nem pão para matar a fome — era tanto que fazia tudo para agradar aos patrões. E fazer tudo era ali encarregar-se de um número infindável de tarefas: ajudar na cozinha, arrumar os quartos, lavar e passar a roupa a ferro, servir à mesa, cuidar de seis crianças que necessitavam permanentemente de alguma coisa (de comer, vestir, ir para a escola). E era ainda tratar do próprio filho, a que assistia sempre em último lugar, mas a que não faltava com o seu zelo nem privava do seu amor.

     — Maria da Glória! Maria da Glória! Maria da Glória!

     Repetiam-lhe o nome constantemente, convocavam-na um ror de vezes, porque queriam isto, porque queriam aquilo, enfim, porque não a dispensavam para nada.

     Foi nesta lufa-lufa interminável, sem dispor de um minuto para si; nesta canseira permanente, de manhã à noite, sempre de farda vestida e de pantufas nos pés, que Maria da Glória passou quarenta anos de vida, ao longo dos quais envelheceu, perdeu a formosura e cobriu o cabelo de cãs — até que caiu à cama e adoeceu.

 

8

 

     Passou o tempo, passaram os anos, o mundo deu muitas voltas — até que Joaquim Alberto e Maria da Glória se conheceram.

    Ambos com vivências tão diversas uma da outra, nascidos em locais tão distintos, filhos de famílias tão diferentes, com costumes, habilitações e projetos de futuro tão desiguais — acharam-se face a face numa tarde soalheira de julho num quarto de um hospital.

     Interessa pouco referir aqui qual a enfermidade que atingiu a doente; é irrelevante registar como o mal foi debelado pelo médico. Pormenores de somenos importância num encontro que estava de há muito predestinado.

     Apesar do sofrimento físico por que passara, dos comprimidos que havia tomado e das injeções que levara, Maria de Glória nunca se sentira tão feliz como agora.

     Acordar pela manhã, ser servida por alguém e não servir ninguém; sentar-se na cama e ter logo à sua frente um pequeno-almoço acabado de preparar; recolher-se de novo sob os lençóis e dormir até ao almoço, depois até ao lanche, depois até ao jantar — isso eram benefícios que sabiam bem. Mesmo muito bem!

     Melhorava a olhos vistos. E daí Joaquim Alberto a avisar e lhe prometer nesse sábado que se preparasse, que se alegrasse, porque teria alta na segunda-feira seguinte e poderia voltar para casa.

     — Já, senhor doutor? Tão cedo?...

     Médico e doente trocaram entre si um olhar cúmplice. Um lampejo, uma chispa, uma centelha, que durou menos de um segundo.

     Joaquim Alberto percebeu. Aquela mulher que perdera já a palidez das faces, que começava a sorrir e a falar com toda a gente sem o acanhamento inicial, estava seguramente a passar ali as primeiras férias da sua vida.

     Percebeu e procedeu em conformidade. Ia a escrever qualquer coisa no registo que tirara do dossiê que trazia na mão, mas desistiu.

     Virando-se para a enfermeira, observou:

    — Na segunda-feira ainda não. É cedo talvez, pode ter uma recaída. Mais tarde, mais tarde...

 

Inácio Rebelo de Andrade

in Que nem uma Flor por Abrir

Edições Colibri, Lisboa, 2012 (versão revista pelo autor)

 

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