Sábado, 21 de Março de 2015

Contos revisitados (42)

 

42OSextoSentido

«Foi com o ouvido que o homem ouviu as notas de música»

 

O SEXTO SENTIDO

 

1

 

     ERA UMA VEZ Deus que estava a fazer o mundo: primeiro criou o céu, onde pôs as estrelas, o sol e a lua; a seguir criou os mares, onde pôs os peixes e os outros seres aquáticos; por fim criou a terra seca, com os continentes e as ilhas, onde pôs os rios, os vales, os montes, as plantas e os animais.

     Deus colocou todas estas obras no lugar certo, dando um nome próprio a cada uma. Com amor e engenho especiais, criou ainda o homem, que fez à Sua imagem e semelhança.

     O homem foi pois a última criação, mas também a primeira e única em que o Criador Se projetou deliberadamente.

     Deus fez o homem desta maneira: deu-lhe de início o corpo, insuflou-lhe depois a alma, dotou-o finalmente de sentidos — não cinco, como procedeu com os outros animais, mas seis, pela ordem seguinte: a vista, o ouvido, o olfato, o gosto, o tato e a revelação. Foi na consequência dessa doação que o homem pôde observar, escutar, cheirar, saborear, tocar — e ainda adivinhar.

 

2

 

     Com a vista, o homem pôde observar. Viu os outros seres e as coisas com as cores que tinham: o amarelo, o vermelho, o azul, o verde, o roxo, o castanho; distinguiu o branco do preto (que não eram cores, mas respetivamente a reunião e a ausência delas); percebeu que umas e outras podiam ser mais ou menos intensas, que podiam combinar-se entre si, dando um sem-fim de tons.

     O homem viu o amarelo das pétalas de muitas flores, o ver­melho dos frutos de muitas árvores, o azul do céu e do mar, o verde dos pastos, o roxo do crepúsculo, o castanho da terra. Deu conta da luz e da sombra, do claro e do escuro, de quando era dia e de quando era noite. Com os olhos fitos no firmamento, viu o relâmpago que anunciava o trovão.

     Foi também com a vista que o homem conduziu as mãos na feitura do que ia precisando: roupas para vestir, ferramentas para trabalhar, armas para combater, casa para morar.

     Foi ainda com a vista que o homem viu e se apaixonou pela mulher: contemplou-lhe a perfeição do rosto, mediu-lhe a delicadeza da figura, percebeu-lhe o movimento dos gestos, desvendou-lhe as partes mais íntimas, fê-la depois sua companheira.

     O homem agradeceu a Deus o sentido da vista e não se cansou de Lhe manifestar calorosamente a sua gratidão:

    — Eu Te dou graças, Senhor, por ver tudo quanto vejo! Eu Te louvo e Te bendigo por dádiva tão preciosa!

 

3

 

     Com o ouvido, o homem pôde escutar. Ouviu o rugido do leão, o silvo da serpente, o relincho do cavalo, o grunhido do porco, o chilreio dos pássaros, e também os demais sons que os outros animais faziam para comunicar entre si.

     Com o ouvido, o homem ouviu o mar, ora em ondas marulhando nas praias, ora em vagalhões bramando nas procelas; ouviu o vento, à maneira de um sussurro quando estava calmo, a modos de um clamor quando estava agitado.

     O homem ouviu a sua voz e aprendeu depressa como ela lhe servia para cantar, gritar, segredar, protestar ou implorar; aprendeu como ela lhe bastava em cada momento para exprimir o seu humor: se estava alegre, triste, zangado, desesperado ou suplicante.

     Foi com o ouvido que o homem ouviu as notas de música, que as combinou entre si, que as juntou em melodias para prazer da alma e do coração. Foi para não tocar cada uma sempre da mesma maneira que ele inventou os instrumentos: os de sopro, os de corda e os de percussão.

     O homem ouviu a mulher suspirar de amor; nove meses depois, ouviu o filho vagir e estremeceu de contentamento.

     O homem agradeceu a Deus o sentido do ouvido e não se cansou de Lhe manifestar calorosamente a sua gratidão:

— Eu Te dou graças, Senhor, por ouvir tudo quanto ouço! Eu Te louvo e Te bendigo por dádiva tão preciosa!

 

4

 

     Com o olfato, o homem pôde cheirar. Deu conta de muitas fragrâncias: do perfume que exalava das flores (da rosa, do cravo e da violeta), bem como do que vinha dos frutos (do limão, da maçã e do ananás), e ainda do que chegava das árvores (do pinheiro, do cedro e do sândalo); deu conta do odor forte da baunilha e da canela.

     Pelo olfato, o homem conheceu o cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas, bem como o da brisa soprada do mar; aprendeu a distinguir os cheiros: os bons, que lhe agradavam, e os maus, que lhe repugnavam.

     Mesmo de olhos e ouvidos fechados, como se fosse cego e surdo, o homem aprendeu a identificar as coisas e os seres pelo cheiro de cada um; com os anos, fez isso até na presença dos odores mais ténues e impercetíveis.

     O homem cheirou a mulher e excitou-se com os aromas do corpo dessa parceira: do seu cabelo, do seu hálito, da sua pele.

O homem agradeceu a Deus o sentido do olfato e não se cansou de Lhe manifestar calorosamente a sua gratidão:

     — Eu Te dou graças, Senhor, por cheirar tudo quanto cheiro! Eu Te louvo e Te bendigo por dádiva tão preciosa!

 

5

 

     Com o gosto, o homem pôde saborear. Foi pelo gosto que ele conheceu o doce e o amargo (o doce do mel e o amargo do fel), que soube distinguir o salgado do ensosso.

     Pelo gosto, o homem aprendeu a temperar os alimentos: usou a pimenta, o louro, o cominho, o açafrão, a hortelã, o coentro, a salsa, e fez de um naco de carne ou de uma posta de peixe um manjar delicioso.

     Pelo gosto, o homem tentou uma, duas, três vezes, até que aprendeu a misturar castas de uvas e a fazer vinhos para acompanhar cada manjar: tintos e brancos, verdes e maduros, licorosos e espumosos. Fermentou frutos de outras plantas e fez outras bebidas: de laranja, de cidra, de funcho, de anis, de poejo.

     Pelo gosto, o homem soube assim satisfazer e instruir o paladar, preparando com requinte cada refeição.

     O homem beijou a mulher e deleitou-se com o que provou nessa boca simultaneamente branda e firme: o melhor de todos os manjares, o melhor de todos os vinhos.

     O homem agradeceu a Deus o sentido do gosto e não se cansou de Lhe manifestar calorosamente a sua gratidão:

     — Eu Te dou graças, Senhor, por saborear tudo quanto saboreio! Eu Te louvo e Te bendigo por dádiva tão preciosa!

 

6

 

     Com o tato, o homem pôde tocar. Foi pelo tato que ele aprendeu a distinguir o duro do mole, o quente do frio; que soube como acariciar, apertar, esmagar, esfregar, conduzindo a mão para o gesto conveniente.

     Pelo tato, o homem conseguiu dar conta de coisas que eram caraterísticas próprias de outras coisas, como a macieza da seda e a aspereza do burel, a frouxidão da neve e a consistência do gelo.

     Pelo tato, o homem aprendeu a afagar o pelo dos animais domésticos (do cão, do gato e do cavalo), mostrando a todos como lhes queria bem. Pelo tato, percebeu a diferença existente entre a pele aveludada de um pêssego e a casca rugosa de uma noz.

     O homem afagou a mulher: afagou-lhe o rosto, os seios e as coxas; pela ponta dos dedos, avaliou como o corpo da companheira estremecia e vibrava de prazer.

     O homem agradeceu a Deus o sentido do tato e não se cansou de Lhe manifestar calorosamente a sua gratidão:

     — Eu Te dou graças, Senhor, por tocar tudo quanto toco! Eu Te louvo e Te bendigo por dádiva tão preciosa!

 

7

 

     Omnipotente e magnânimo, Deus concedeu os cinco sentidos a todos os animais.

     À águia, que tinha de observar de longe o movimento da sua presa, afinou-lhe a vista; o que fez igualmente com o lince. Ao lobo, que tinha de cheirar a pista do seu repasto, afinou-lhe o olfato; o que fez também com a hiena. Deus procedeu sempre do mesmo modo: a uns afinou o ouvido, a outros afinou o gosto, a alguns afinou o tato.

     Deus era bondoso e justo. Com a Sua equidade infinita, não beneficiou uma criatura em detrimento de outra: se favoreceu esta com uma vista penetrante, distinguiu aquela com um olfato apurado; sem cometer erros nem mostrar preferências, distribuiu com o mesmo critério o ouvido, o gosto e o tato.

     Porque o fez à Sua imagem e semelhança, o quis assim superior a todas os outros animais, Deus concedeu ao homem um sexto sentido, que foi a revelação.

 

8

 

     Com a revelação, o homem pôde adivinhar. Foi pela revelação que ele soube antes o que conheceria depois: ou seja, aquilo que iria ver, escutar, cheirar, saborear ou tocar. Esse poder era grande, mas frustrante, porque punha em causa a descoberta da novidade.

     Não ficar surpreendido com a cor de uma flor, o chilreio de um pássaro, o odor de um perfume, o sabor de um alimento, o toque de um tecido; não ficar admirado com tudo isso — era dom ou vantagem que não podia agradar.

     O homem interrogou-se:

     Que interesse tinha esse sexto e último sentido que prenunciava a aptidão dos outros cinco? Onde estava agora a satisfação de ver, escutar, cheirar, saborear ou tocar fosse o que fosse pela primeira vez?

     Concluiu, comparando:

     Os outros animais, que andavam na terra, voavam no ar e na­davam no mar, não eram certamente mais felizes?

     Julgando-se prejudicado, o homem rogou a Deus com todo o seu fervor:

    — Eu Te peço, Senhor, eu Te suplico que não me deixes mais adivinhar aquilo que irei ver, escutar, cheirar, saborear ou tocar. Não sou mal-agradecido, mas dispenso tal privilégio.

     Apesar de omnisciente, Deus espantou-Se. Como era possível rejeitar uma dádiva tão valiosa? Um favor tão especial?

     O homem insistiu e rogou pela segunda vez:

     — Eu Te peço, Senhor, eu Te suplico que não me deixes mais adivinhar!

     Deus amava, como amará eternamente, todas as criaturas, e tanto, tanto, que cuidava de as contentar e lhes atender as preces.

     Foi por isso com certeza que tirou ao homem o sexto sentido, o qual guarda e reserva ainda para um ente extraordinário que há de criar um dia... 

 

Inácio Rebelo de Andrade

in Parábolas em Português

Vega, Lisboa, 1999 (Coleção «O Chão da Palavra») (versão revista pelo autor)

 

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publicado por olhoatento às 08:43
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