Terça-feira, 22 de Setembro de 2015

Em memória de Vitor Silva Tavares

 

VitorSilvaTavares

 

MORREU VÍTOR SILVA TAVARES

     

     Em setembro ou outubro de 1961 (vou tendo cada vez mais lapsos de memória), recebi um convite do Vítor Silva Tavares para colaborar no nº especial de Natal que o jornal «O Intransigente», de Benguela, estava a preparar. Ele era então chefe de redação do periódico e pretendia, como escrevia a propósito (se bem me lembro), «publicar qualquer coisa para a frente, ainda que correndo o risco de ser rejeitada pelo lápis azul da Censura». Referir «qualquer coisa para a frente» significava na altura (talvez…) um texto sobre o colonialismo, contra o qual uma guerra estava a começar, que iria levar à independência de Angola.

     Convém lembrar que esse era o tempo em que a PIDE andava «à caça» (passe a metáfora) dos jovens que, tal como eu, iam publicando textos sobre as injustiças praticadas sobre os negros pelos brancos (não todos, diga-se em abono da verdade), nomeadamente no que dizia respeito ao trabalho forçado dos chamados «contratados», que eram levados contra a sua vontade para longe dos locais de residência.

     Era algo sobre o assunto que o Vítor Silva Tavares pretendia certamente — e que eu satisfiz, como pude e soube.

     Do relato que faço, retiro duas coisas dignas de registo: a primeira, ter conhecido alguém que nunca mais esqueceria, esse mesmo que acaba de falecer e que quero homenagear aqui; a segunda, ter publicado no periódico benguelense um texto que conseguiu passar à perscrutação sempre atenta da polícia política. «E ainda bem», como haveria de dizer mais tarde o meu amigo e companheiro de letras Ernesto Lara Filho.

     O conto «A velha que tinha quase cem anos» (era assim o título da ficção enviada para «O Intransigente») integrou já o meu livro «Revisitações no Exílio», foi também reproduzido em dezembro do ano passado pelo jornal angolano «Cultura», tão competentemente dirigido pelo José Luís Mendonça. É agora incluído neste blog, em memória de quem esteve na sua origem e nos deixa para sempre.

  

A VELHA QUE TINHA QUASE CEM ANOS

 

     Àquela hora, era sempre assim: depressa, sem mangonha, quase de um minuto para o outro, o céu escurecia a toda a volta, ficava negro de breu, e a noite caía sobre o sobado. As pessoas recolhiam-se aos chingues. Repetindo gestos habituais, acendiam então o fogo no meio das pedras, punham por cima a panela de barro com a água para a fuba, escolhiam e apuravam o conduto, enfim, preparavam o jantar.

     Na esteira de palha, Wanguila Kaley esperava o seu mo­mento, que devia estar próximo. Não sentia no ventre as dores que vinham e iam regularmente?, não sabia que as mesmas, como ferroadas de marimbondos, eram o sinal de que tinha de abrir as pernas, para deixar entrar no mundo o filho que trazia no ventre?

     Que pena Tchicambi, o marido, não estar ali!... Alguns meses antes, levado pelo angariador, partira para o contrato com outros companheiros, a caminho de Moçâmedes.

     Tchicambi apanhava agora peixes nos barcos que navegavam no mar. Que pena!... Tchicambi não sabia nada de peixes, nem gostava deles; não sabia nada de barcos, nem gostava deles; não sabia nada do mar, nem gostava dele. Era bailundo, tinha uma lavra, e do que ele gostava mesmo era de apanhar pássaros com visgo (bicos-de-lacre, catuítuís, benguelinhas); de ver a mulher cavar a terra com o etemo, para armar as bipangas e semear aí o milho, o feijão, a batata-doce; do que gostava mesmo era de respirar o ar limpo do Planalto.

     Wanguila Kalei perguntou à mãe que mal fizera a Deus? Por que é que não tinha junto de si o pai do menino que ia nascer? Por que estava sozinha num momento tão importante? Por que é que Deus queria uma coisa assim?

     A mãe era uma velha muito velha, que tinha quase cem anos; por causa da sua idade avançada, sabia de tudo e dizia sempre a verdade.

     Respondeu à filha que Deus era Deus e não tinha nada a ver com a ambição e a maldade dos homens; que os brancos, por causa dos seus negócios, querendo ganhar dinheiro, e mais dinheiro, e mais dinheiro, é que levavam os pretos para o contrato, os separavam de casa e da família; que com a autorização do Chefe do Posto, os levavam sabia-se lá para onde, sabia-se lá por quanto tempo.

     Wanguila Kalei perguntou porquê?

     A velha não respondeu. Ficou em silêncio dessa vez: talvez porque se lembrou então de Chipipa, o marido, que partira também um dia para Moçâmedes.

     Chipipa fora apanhar peixes nos barcos que navegavam no mar. Que pena!... Chipipa não sabia nada de peixes, nem gostava deles; não sabia nada de barcos, nem gostava deles; não sabia nada do mar, nem gostava dele. Era bailundo, tinha uma lavra, e do que ele gostava mesmo era de apanhar pássaros com visgo (bicos-de-lacre, catuítuís, benguelinhas); de ver a mulher cavar a terra com o etemo, para armar as bipangas e semear aí o milho, o feijão, a batata-doce; do que gostava mesmo era de respirar o ar limpo do Planalto.

 

***

 

     Wanguila Kalei soergueu-se sobre os cotovelos, arqueou o corpo num espasmo e avisou que o menino estava a chegar: que vinha com a madrugada que parecia raiar lá fora.

     A velha que tinha quase cem anos, que sabia de tudo e dizia sempre a verdade, abanou a cabeça, como a dizer que não:

     — Hum!, hum!... Tu t’ingana. Inda é cedo, munto cedo...

     O menino viria sim, certamente numa madrugada, mas mais tarde.

    Com o cachimbo entalado entre os lábios, coçando a carapinha branca, repetiu pela segunda vez: mais tarde, muito mais tarde.

 

Inácio Rebelo de Andrade

(Benguela, Dezembro de 1961,

nº especial de Natal de «O Intransigente»)

 

publicado por olhoatento às 18:48
link do post | favorito
|
Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Reeditando (36)

Nova Lisboa, aeroporto Norton de Matos NA HORA DO EMBARQUE — Por aqui, por aqui... Andem lá... Depressa! ...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 15:51
link do post | favorito
|
Segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Reeditando (35)

«Enfia o roupão de seda, calça os chinelos e vai até às janelas» 2ª COMISSÃO Ela dorme ao lado, iluminada pe...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 09:04
link do post | favorito
|
Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Reeditando (34)

«No fim do Cacimbo, adormeceu para sempre e partiu» A MORTE DE UM HOMEM BOM Quando sucede de modo inespe...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 09:01
link do post | favorito
|
Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Reeditando (33)

O sol de Angola, que se vê uma vez e não se esquece mais. A pedido de muitos amigos, saudosistas da sua terra, o co...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 14:31
link do post | favorito
|
Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

Reeditando (27)

Festejando na rua o fim da Guerra de 1939-1945 ESPERANÇA EFÉMERA Com o fim da Guerra, a esperança no futuro ...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 08:30
link do post | favorito
|
Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Reeditando (24)

Ernesto Lara Filho, por Francisco G. Amorim EVOCANDO O POETA ERNESTO LARA FILHO Alternando com as crises d...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 20:58
link do post | favorito
|
Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2013

A propósito da quadra...

QUANDO O MENINO JESUS FEZ DE PAI NATAL NOS AÇORES por: Esaú Dinis Naquele ano, ainda o Natal vinha longe, ...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 08:57
link do post | favorito
|
Sábado, 7 de Dezembro de 2013

Reeditando (18)

«O sabor de uma moamba de galinha» OS CHEIROS, OS SABORES E O ESPAÇO DE ANGOLA Os cheiros de África, os che...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 22:19
link do post | favorito
|
Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

Reeditando (17)

«As cores das acácias de Benguela» AS CORES E OS SONS DE ANGOLA As cores de África, as cores de Angola! ...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 07:39
link do post | favorito
|
Sexta-feira, 8 de Novembro de 2013

Reeditando (16)

«Essa luz que iluminava nas matas as copas das árvores». A LUZ DE ANGOLA Depois de quase quarenta anos passa...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 20:59
link do post | favorito
|
Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

Dia de aniversário

Esaú Dinis Às vezes a manhã acorda um dia de aniversário que dura o dia todo até à noite e depois a vida inteira ...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 09:57
link do post | favorito
|
Sábado, 7 de Setembro de 2013

Reeditando (12)

«Será que vai deixar de ir à missa na Sé?» JULHO DE 1974, PARTIDA DE NOVA LISBOA A manhã está menos fria. Nã...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 07:54
link do post | favorito
|
Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

A propósito da morte ...

Esaú Dinis O Esaú Dinis, que faz o favor de ser amigo de há muitos anos do coordenador deste blog, a propósito da n...

Ler artigo
publicado por olhoatento às 16:19
link do post | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Em memória de Vitor Silva...

. Reeditando (36)

. Reeditando (35)

. Reeditando (34)

. Reeditando (33)

. Reeditando (27)

. Reeditando (24)

. A propósito da quadra nat...

. Reeditando (18)

. Reeditando (17)

. Reeditando (16)

. Dia de aniversário

. Reeditando (12)

. A propósito da morte do «...

.entradas no blog

Free track counters
Lovely Counter

.posts visitados

Free track counters
Lovely Counter

.meteorologia

.favorito

. Especulações vocabulares ...

. Melhor a imagem do que a ...

. Da Angola que permanece n...

. No momento da morte de Ne...

. Reeditando (6)

. A preto e branco (5)

. Em versos me revelo (5)

.tags

. evocação

. ficção

. poesia

. recordações de angola

. temas em análise

. todas as tags

.arquivos