Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Reeditando (73)

 

«Toda a multidão presente, até aí aparentemente calma, se agitava»

 

NA HORA DO ADEUS

 

     A saída dos paquetes para África juntava sempre no cais uma multidão de gente oriunda de diversos lugares do país, comungando em conjunto a saudade antecipada, quer dos que partiam, quer dos que ficavam. Em grupos compactos, homens, mulheres e crianças traziam consigo a bagagem que deviam levar nos camarotes. Acompanhados de parentes e amigos, conversavam sobre tudo e sobre nada, convencendo-se ou tentando convencer-se de que nenhuma coisa especial estava então para acontecer.

     Conforme as horas passavam, à maneira das ondas do mar que crescem antes de rebentar na praia, o sentimento de perda que todos partilhavam arrancava de alguém um grito, uma exclamação, um soluço, e toda a multidão presente, até aí aparentemente calma, se agitava, começava a chorar, clamando entre abraços e lágrimas «Meu filho!, meu filho!», ou «Meu pai!, meu pai!», ou «Minha mãe!, minha mãe!», incapaz de calar por mais tempo a dor da separação.

     Uma fila de gente continuava a subir para o convés da proa pela escada móvel destinada aos passageiros de 3ª Classe. Carregados de malas e volumes de mão, todos avançavam lentamente até cima.

     Um grumete fardado a rigor percorria os tombadilhos com um gongo na mão, onde batia para avisar que o navio se preparava para deixar o cais.

     À maneira de uivos imensos, tão demorados quanto lúgubres, as sirenes começaram a tocar. Ainda mais compactadas entre si, as pessoas que se encontravam em terra puxaram de lenços brancos: tal como faziam em Fátima, acenavam desta vez, não à Virgem da Cova da Iria, mas às mães, aos pais, aos irmãos, aos noivos, aos parentes e aos amigos debruçados na amurada. De vez em quando, um grito lancinante, até uma blasfémia ou uma maldição, que um ou outro não conseguia calar.

     Um rebocador veio tirar o navio do porto, que se foi afastando: primeiro lentamente, muito lentamente, depois mais depressa, muito mais depressa, até ficar apontado para o rumo conveniente. Quem estava a bordo podia ver agora melhor, não apenas aqueles que estavam na gare, mas também a cidade, que ficava por trás.

     À luz da manhã soalheira (nem parecia que se estava em dezembro, a duas semanas do Natal), Lisboa era cada vez mais ela: deitada nas sete colinas, com o Terreiro do Paço à direita, a Torre de Belém e os Jerónimos à esquerda; tão cada vez mais ela como à noite, na Alfama e na Mouraria, os fadistas a cantavam e lhe prestavam culto.

     Desembaraçado das amarras e finalmente liberto do rebocador, os hélices deixando no Tejo um rasto turvo de espuma, o «João Belo» navegou a caminho da barra, para entrar depois no mar alto, e daí, como fazia regularmente, largar em África a esperança ou o desespero daqueles que transportava consigo.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «Na Babugem do Êxodo»

publicado por olhoatento às 09:02
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