Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017

Reeditando (72)

 

 

«Muitos outros brancos partiam para o Brasil» 

 

MUITOS VÃO PARA O BRASIL

 

     Como Alberto Oliveira, muitos outros brancos partiam para o Brasil. Pelo que iam sabendo das notícias que ouviam, todos comungavam a mesma convicção: a de que logo após o 25 de Abril, o retorno a Portugal dos chamados «colonialistas» (ou seja, de quem ficara rico, como diziam, «explorando os pretos») não era visto com simpatia. Muito pelo contrário.

     Para quê sujeitarem-se então à vergonha desses e outros in­sultos, terem de ouvir e calar, quando um país irmão lhes abria as portas e os recebia do outro lado do Atlântico? Para quê passarem por vexames dispensáveis?

     Quando fracassaram a tentativa de imitar Ian Smith e o golpe secessionista da Rodésia de 1965, aqueles que pensavam assim reforçaram mais a sua disposição de não voltar à Pátria. Recorrendo a expedientes e a negócios escusos, quem tinha património imobiliário começou a vendê-lo; em viagens sucessivas para o estrangeiro, quem tinha dinheiro nos bancos tratou de cambiá-lo por moeda com cotação garantida. Nesse corre-corre desenfreado, especuladores sem escrúpulos aproveitaram-se dos que pareciam mais assustados ou não dispunham de tempo bastante para alienar os bens.

     Ou porque não entrava em negociatas duvidosas; ou acreditou até ao fim que Angola seria sempre portuguesa; ou ouviu mas não seguiu os conselhos de ninguém, Alberto Oliveira teimou, teimou, e não cuidou do futuro. Já a Cimeira do Alvor estava marcada para o Hotel Penina e as delegações dos Movimentos se preparavam para assinar oficialmente um acordo, e ainda ele continuava persuadido de que as coisas se haveriam de compor a contento de todos.

     Enganou-se. E bem! Deu conta disso muito tarde, quando não tinha mais nada a fazer senão as malas, metendo lá apenas e à pressa, por entre as peças de roupa, um faqueiro e dois castiçais de prata.

     Enquanto ouve lá fora o zumbido monótono dos reatores, Maria da Luz recorda esses acontecimentos. Sofre por ter a certeza de que os pais irão enfrentar dificuldades. Sofre também ou especialmente porque não lhes poderá prestar na ocasião o seu apoio nem os irá confortar com as suas palavras.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «Passageiro sem Bilhete»

publicado por olhoatento às 09:53
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