Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Reeditando (71)

 

Juntavam-se com outros pares de circunstância para jogar à sueca.

 

TINHAM MUITAS AFINIDADES

 

     Sem patrão a quem ter de dar satisfações pelo que fazia; sem ouvidos sensíveis às suas diatribes, Abel tornou-se mais violento: dava mais murros no balcão, proferia mais insultos contra a clientela, iniciou uma perseguição quase obsessiva ao cozinheiro Lucas e à lavadeira Cristina, que andavam num virote e não sabiam como agradar àquele tchindér.

     Engordara um pouco com os anos: do Apolo que Isabel to­para um dia numa revista ilustrada que falava da Grécia, persistia o corpo musculoso, agora de barriga proeminente, esse corpo grande, grande, grande — tão grande que merecera do tio ma­terno a alcunha de «Morgadão».

     Ele gostava de lembrar aos amigos que tivera sempre vaidade nesse epíteto. Como referira um dia a Zeferino Antunes, Chefe do Posto da Nhareia, «antes Morgadão do que Morgadinho...».

     Zeferino achara graça ao trocadilho e soltara uma gargalhada. Bem visto! Aquele Abel tinha a língua afiada e saía-se com cada uma!

     — Tem razão. Toda a razão!

     Quisera explicar por que concordava:

     — Morgadinho é que era mau. Podia dar a entender que você tinha pouca fibra, era alguém sem coragem...

     — Ora aí está. E isso é que eu nunca aceitaria. Era o que faltava!...

     Os dois entendiam-se bem desde que se conheciam. Ao fim de pouco tempo de convivência, descobriram que tinham muitas afinidades: o mesmo clube de futebol, o Sport Lisboa e Benfica, as mesmas preferências culinárias (frango de churrasco com piripiri e arroz de polvo, regados com vinho tinto), o mesmo ódio aos comunistas, que chamavam de «sacripantas» («Esses filhos de um cabaz de éguas, que só querem a desgraça do mundo!»), o mesmo respeito, melhor, a mesma deferência pelo Presidente do Conselho Oliveira Salazar («Um homem providencial, que tirou o país da merda!»), a mesma convicção de que os negros eram crianças grandes, irresponsáveis, calaceiras, que só à porrada trabalhavam e produziam alguma coisa.

     Ora um, ora outro, perguntavam-se:

     — Mas não é assim?

     — Exatamente assim. Tal como diz.

     Juntavam-se com outros pares de circunstância para jogar à sueca. Gostavam de ser parceiros, pediam os naipes batendo com os punhos na mesa, gabando-se ostensivamente de que davam capilotas de primeira a quaisquer adversários.

 

 Inácio Rebelo de Andrade

do romance «O Pecado Maior de Abel

 

publicado por olhoatento às 09:49
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