Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Reeditando (70)

 

«Tal como para Angola, muitos portugueses iam para o Brasil»

 

NEM TODOS IAM PARA ÁFRICA

 

     Tal como para Angola, muitos portugueses iam para o Brasil tentar a sorte, deixando a terra onde lutavam em vão por uma vida melhor. As crónicas da época relatam com algum pormenor essa emigração constante, que era e continua a ser uma espécie de fatalidade de um país incapaz de sustentar por si próprio toda a sua população.

     Ainda criança de oito ou nove anos, Maria da Glória lembrava-se bem da manhã fria de novembro em que os pais, Henrique Carrajola e Joana da Natividade, se haviam despedido do irmão, Leonardo, que no dia seguinte, em Lisboa, embarcaria para o Rio de Janeiro. Como acontecia por regra em tais situações, os dois haviam chorado muito na hora da despedida, dito e repetido que não voltariam a ver o filho.

     E não voltariam de facto. Leonardo foi-se embora nesse ano longínquo de 1909, chegou ao destino ao fim de uma viagem custosa de suportar, pôs pé em terra, mas só muito tempo depois, quando era já dado na família como desaparecido, mandou notícias. Estava bem, fora para São Paulo, estabelecera lá uma padaria, gozava de uma situação económica desafogada.

     Leonardo Carrajola nunca mais voltou a Portugal, nem teve sequer vontade de passar em Évora alguns meses de férias. Tinha uma atividade para gerir, muita gente às ordens (depois da primeira padaria, instalara a segunda; a seguir à segunda, instalara a terceira), e isso exigia a sua presença permanente em São Paulo.

     Casou com a filha mais nova de um emigrante italiano, que se chamava Emília, mulher vistosa, de corpo cheio, a pele morena, o cabelo e os olhos negros, os seios fartos, a boca sensual.

     Casou e foi feliz.

     Ou quase, porque um desgosto veio perturbar aquela união: a ausência em casa de um bebé, que era ansiosamente esperado, mas não nascia.

     Apesar do seu desejo e da sua desenvoltura, das promessas que fazia aos santos e santas da sua devoção, Emília não engravidava. Meses e meses seguidos à espera de poder experimentar essa ventura, e nada.

     Um ex-pretendente conterrâneo, que fora rejeitado por ser vesgo e andar na vagabundagem, comentava com despeito que a compatriota era «boazuda», uma «figurona», mas carregava consigo um útero «imprestável»:

     — Tão seco e estéril como uma pedra...

     De princípio com custo, mais tarde com naturalidade, o casal habituou-se à situação. Que havia de fazer? Tinha tudo, menos «nenéns». Era uma pena, uma tristeza, mas haveria contrariedades piores.

     Se falavam por caso no assunto, os dois tentavam confortar-se:

     — Outros passam pelo mesmo.

     Leonardo escrevera à irmã a anunciar o casamento. Fora la­cónico como de costume: que a mulher era italiana, bonita, filha de pais emigrantes.

     Maria da Glória respondera de imediato: que ficava contente com a notícia e enviava cumprimentos para a cunhada.

     A correspondência parara aí. Ou melhor: voltou aos cartões do Natal e da Páscoa, com os votos habituais. Leonardo no Brasil, Maria da Glória em Portugal continuavam a saber que existiam, e isso parecia que bastava.

     Apesar da sua aparência física, Emília era uma pessoa de saúde frágil. Fazia um esforço e cansava-se logo, perdia uma noite e sentia palpitações na manhã seguinte.

     De acordo com o diagnóstico dos médicos, padecia de um mal do coração, pelo que devia seguir as prescrições recomendadas na época: repousar e dormir muito, deixar correr a vida sem sobressalto, evitar arrelias.

     Com o passar dos anos, foi definhando. Para mágoa daqueles com quem privava, especialmente dos pais e do marido, perdeu a frescura de outrora, as poucas e fracas forças que tinha, até que numa madrugada de março, já um forno àquela hora, recebeu a extrema-unção e sucumbiu.

     Leonardo ficou inconsolável. Depois do funeral, fechou-se no quarto dias a fio, sem querer falar com ninguém.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «A Mulata do Engenheiro»

 

publicado por olhoatento às 07:01
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