Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016

Reeditando (69)

 

69EmÁfricaTodaAGenteMadruga

Acordaram quando o sol entrou pelos vidros da jenela

 

 EM ÁFRICA, TODA A GENTE MADRUGA

 

     Acordaram quando o sol entrou pelos vidros da janela e bateu em cheio nas cabeceiras das camas. Ouviram vozes por perto, falando uma língua desconhecida.

     Armando levantou-se. Pegou no jarro de alumínio e encheu de água o lavatório de esmalte. Como procedia sempre àquela hora, ensaboou a cara de espuma com o pincel de crina de cavalo, tirou do estojo a navalha de aço inoxidável, cujas faces passou no cabedal lustroso do afiador, zás!, zás!, zás!. Com a presteza adquirida ao longo dos anos, começou a fazer a barba.

     Sem cuidados especiais, como quem está atrasado ou se pre­ocupa pouco com a toilette, despiu o pijama e arranjou-se rapidamente.

     Sebastião não demorou mais. Em menos de cinco minutos, ficou pronto para sair.

     Os dois deixaram o quarto e seguiram depois pelo corredor até à sala de estar onde tinham estado na véspera. À luz clara da manhã, a confusão de objetos parecia agora mais evidente.

   Aristides conversava com Chipipa, que baixava a cabeça e repetia sem hesitação:

     — Sim, patlão, percebeste.

     — Ótimo! Vai lá então e não metas as mãos pelos pés, como de costume.

     Quando se virou e deu por Armando e Sebastião, pareceu surpreendido:

     — Já a pé? Tão cedo?

     Pôs-se a adivinhar:

     — Estou a ver. Dormiram mal e estranharam os colchões.

     Armando observou que não: ele tinha aquele hábito desde miúdo; como a mãe lhe dizia muitas vezes, levantava-se com as galinhas.

   Aristides achou bem. Isso era coisa útil em África, onde toda a gente madrugava:

     — Com este sol tão brilhante e convidativo, ninguém pode ficar na cama.

   Informou que o matabicho estava já na mesa, que todos podiam passar imediatamente à sala de jantar.

     Nem no paquete «João Belo», durante as três semanas de viagem, Armando e Sebastião viram um pequeno-almoço igual. Na mesa enorme retangular, havia de tudo: o pastelão de chouriço com cebola e salsa, o moringue de água e a taça de frutas; no topo mais afastado, uma travessa de bifes com ovos estrelados acabados de fazer; no centro, uma cesta de pão e uma manteigueira destapada, com dois bules de lado, para o leite e para o café.

   Uma mescla forte de odores tomava conta da sala: vinha do pastelão de chouriço, mas também da taça de frutas, da travessa de bifes, sobretudo do bule do café, que imperava hegemonicamente.

     Chilata estava à espera, para servir. Sem esboçar um gesto, continuava com os pés descalços e os braços em cruz sobre o peito.

     Aristides convidou:

     — Sentem-se, façam favor.

   Deu o exemplo. Desdobrou o guardanapo, cuja ponta meteu na gola entreaberta da camisa:

     — Vamos lá rilhar esta bucha.

     Armando protestou:

     — Esta bucha?! O patrício exagera!...

     — Pois, pois. É preciso começar o dia com o estômago aconchegado. Toca a comer!

     Sebastião queria experimentar tudo. Levava sofregamente os talheres à boca, mostrando assim como se deliciava com a refeição.

     Aristides esboçou um sorriso e perguntou-lhe:

     — Que tal? Sabe-te bem?

    Como que apanhado em falta, o rapaz pareceu envergonhado. Com as faces muito vermelhas, titubeou uma resposta:

     — Sim, sabe... É muito bom...

     — Então chega-lhe, chega-lhe, para ficares rijo.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «Na Babugem do êxodo»

publicado por olhoatento às 07:14
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