Quarta-feira, 12 de Outubro de 2016

Reeditando (66)

 

66AlcidesVeioDarANotícia

«A Guerra Colonial começava realmente»

 

ALCIDES VEIO DAR A NOTÍCIA

ou O INÍCIO DA GUERRA COLONIAL

 

     No fim dessa manhã de 4 de fevereiro de 1961, Alcides veio à loja mais uma vez. Trazia um ar sisudo, deixando perceber que alguma coisa estranha se passara.

     Abel perguntou:

     — Você está hoje chateado? Que tem?

     O Aspirante contou.

     Em Luanda, alguns negros haviam assaltado a Casa de Reclusão Militar e a Cadeia Civil de São Paulo, tentando libertar os presos políticos aí detidos. Houvera mortes de ambos os lados.

     — É uma chatice! Uma grandessíssima chatice! A guerra começou também aqui.

     Desenvolveu o seu raciocínio:

    — Os selvagens de cá querem imitar os patrícios estrangeiros. A África perdeu o juízo. Toda ela reclama pela independência.

     Abel atalhou:

     — Pois reclama, mas os resultados estão à vista!... É só ver o que sucede aqui ao lado, no Congo. Matam-se uns aos outros, todos querem mandar, ninguém põe mão naquele caos.

     Alcides concordou:

    — Pois não.

     Acrescentou que o Administrador garantia que os acontecimentos ocorridos nessa madrugada marcavam o início da Guerra Colonial.

     — Portugal vai ter agora de descascar aqui uma fruta rija... O sossego acabou.

     Abel tinha outra opinião:

     — Qual quê! Os gajos têm no Puto alguém que lhes fará frente e os meterá na ordem em dois tempos. Salazar não brinca em serviço. Ele saberá pôr ponto final na macacada.

     Enganava-se. O Administrador é que tinha razão. Um mês depois, a 15 de março, militantes da UPA entrariam em Angola pela fronteira norte. De catana na mão, atacariam aí diversas fazendas de café, assassinando indiscriminadamente brancos, negros e mestiços.

     O Administrador concluíra bem. A Guerra Colonial começava realmente, e nem o Governo nem as Forças Armadas sabiam então até quando e com que custos.

     O Aspirante parecia deveras preocupado:

     — Salazar está velho. A ONU não lhe liga importância nenhuma, o mundo inteiro vira-lhe as costas. Até a Inglaterra, nossa aliada de séculos! Ele já não é o que era. Nem uma sombra. Temos de reconhecer...

     Abel discordou de novo:

     — Não reconheço nada! Ele está velho, mas chega ainda para muitos novos!

     Alcides despediu-se. Tão de testa franzida como quando chegara:

     — Bom, vou-me embora. Tenho de ir pregar para outra freguesia. Mas que isto é mau, é...

     Abel discordara veementemente de Alcides, mas ficara também preocupado.

     A vida corria-lhe bem, ele estava cada vez mais rico. Por que raio de motivo havia agora de aparecer uma complicação daquelas, que podia pôr em causa a sua presença em Angola? Porque a verdade, a verdade, é que nenhum branco com juízo devia correr o risco de permanecer em terra governada por negros. Para quê? Para levar um tiro e marchar desta para melhor? Não era o que acontecia todos os dias por essa África fora, nos casos já conhecidos? Andar a trabalhar anos e anos, uma vida inteira sem ter sábados, nem domingos, nem feriados, e ao fim de tanta canseira e privação, levar um pontapé no mataco, e ala!, vai-te embora, porque não tens o direito de continuar aqui! Uma injustiça! Pior: um desaforo!, um descaramento!...

     Mas isso não sucederia ali, não. Esses Agostinho Neto e Holden Roberto que pusessem as barbas de molho, porque se metiam com alguém de têmpera, que sabia muitíssimo bem como lidar com tratantes. Oliveira Salazar não era pessoa para se encolher, assustar-se, titubear. Qual quê! Tinha os tomates no sítio, pelo que não iria meter o rabo entre as pernas e cavar. Virar as costas e fugir era bom para os ingleses, os franceses, os belgas, nunca para um beirão com coluna vertebral e amor pela Pátria!

     Pareceu mais conformado e confiante. Tanto que desabafou consigo próprio: «O Alcides exagera. O tipo é que parece acagaçado de todo».

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «O Pecado Maior de Abel»

publicado por olhoatento às 08:49
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