Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016

Reeditando (65)

 

65ÉCabritaMemo

«Tarefas importantes relacionadas com o maneio e venda do gado»

 

«É CABRITA MÊMO!»

  

     Abílio adaptou-se depressa à vida da chitaca. Poucos meses depois de chegar, tomava já a seu cargo tarefas importantes relacionadas com o maneio e a venda do gado. Fora com Júlio Pires a Nova Lisboa e a Silva Porto, conhecera aí os talhantes para quem devia enviar as reses, tivera pela primeira vez a noção exata de quanto dinheiro aquele negócio gerava.

     Cada vez mas interventivo, dava sugestões, propunha alterações, aprendera até algumas palavras em umbundo, comunicando agora sem dificuldade com serventes e pastores.

     O padrinho não escondia o seu espanto perante tais progressos. Apoiava o afilhado sem reservas e elogiava-lhe a atitude:

     — Muito bem!, muito bem! Saíste-me melhor do que a encomenda!...

   Três anos passaram, e naquele bicanjo distante em que os dois se encontravam, onde o dia inteiro era só trabalhar, trabalhar, trabalhar, ou seja, cuidar dos animais, desde que nasciam até que eram vendidos; homens saudáveis e vigorosos, padrinho e afilhado juntaram-se («amigaram», como se dizia então) com duas negras, com as quais saciavam à noite a sua fome de sexo.

     Júlio Pires escolheu Bebiana, uma mulher feita, os seios opulentos, as ancas firmes, o sorriso provocador, a carapinha penteada em tranças pequenas, a pele preta que nem carvão por arder.

     Abílio escolheu Luena, que se chamava assim por ser ganguela e pertencer à etnia do mesmo nome. Viera do Leste com a mãe e era ainda cafeco.

   O pastor-chefe Gungacusse, que se gabava de não ser enganado por ninguém, porque tinha os «ório esperto» (ou seja, via longe), garantia aos patrões e a toda a gente que a rapariga era cafuza.

     — É cafuza mêmo.

     Se alguém abanava a cabeça e negava, o pastor sorria cinicamente; seguro da sua certeza, insistia:

     — É cafuza mêmo.

     Estaria certo talvez, porque Luena tinha a pele cor de chocolate, macia que nem pena de benguelinha, lustrosa que nem brilho de camanga, delicada que nem pedúnculo de jindungo. Ao contrário de Bebiana, não tinha ainda os seios opulentos, nem as ancas firmes, nem o sorriso provocador, mas toda a sua puberdade prometia isso e muito mais.

     Abílio perdeu-se de paixão por ela, levou-a para o quarto, tirou-lhe o quimono de pintado, depois o pano que torneava a cintura; extasiado, a arder em febre, viu-a na plenitude do corpo jovem e não se conteve: deitou-a na cama, beijou-a, acariciou-a, puxou-a contra si e teve-a sem resistência.

     Sem resistência sim, porque Luena, que pareceu de início surpreendida com o que estava a suceder, que nunca passara por uma experiência assim — porque era mulher, percebeu depressa o que o branco queria... Ele era forte, perfeito, novo, e ela desejara-o já em pensamento. Para quê fingir então que protestava?, que se insurgia?, que se opunha àquela posse?

     Desses momentos de amor, ou de outros que ocorreram a seguir; dos beijos, das carícias, do prazer final de cada entrega; à maneira das folhas tenras do milho que despontam nas bipangas das lavras, nasceu e veio ao mundo uma menina.

     Luena e Abílio exultaram de alegria. Três meses mais tarde, vestiram a roupa melhor que tinham, arrastaram consigo Júlio Pires e Bebiana e foram na Ford calça-arregaçada até à missão católica da vila.

     Ao colo da mãe, a chuchar no dedo, a bebé foi então batizada com o nome de Carolina por um padre da Congregação do Espírito Santo.

     Confirmando a suspeita do pastor Gungacusse sobre a ascendência de Luena e porque nenhuma negação era capaz de pôr em causa as leis da Genética, Carolina nasceu com a pele quase branca, os cabelos desfrisados, os olhos verdes, os lábios finos, o nariz pouco ou nada achatado.

     Sem se atrever novamente a declarar perante terceiros aquilo que pensava, Gungacusse concluiu consigo próprio que aquela menina, com tais atributos (com essa «pére», esses «ório», esses «rábio»), não podia ser mulata, mas cabrita:

     — É cabrita mêmo.

     Abílio cuidou lá de pensar ou se importar com isso! Nem por um minuto. Pegava na filha ao colo, e o que via era apenas um corpo frágil, a espernear nas fraldas, os braços no ar, lindo, lindo, como nunca vira. Nem imaginara sequer.

     Comovia-se muito. Com a voz mais meiga que conseguia pôr, embalava-a de um lado para o outro, sussurrava «hum!, hum!, hum!», chamava-lhe «minha florzinha», «minha rolinha», até «mi­nha bezerrinha»:

     — Minha bezerrinha!

     Carolina era incapaz de entender o palavreado do pai. Mas devia perceber que estava a ser acarinhada, porque de repente, de um instante para o outro, metia o dedo na boca, fechava os olhos e adormecia.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «A Mulata do Engenheiro»

publicado por olhoatento às 18:43
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