Sábado, 2 de Julho de 2016

Reeditando (63)

 

DívidasEExpetativas

Nova Lisboa, Angola, 1975, Aeroporto Norton de Matos

 

DÚVIDAS E EXPETATIVAS

 

     Em frente da escada móvel que sobe para o avião, a fila de passageiros coleia ziguezagueante como uma cobra.

     Uma velha escanzelada leva na mão uma bolsa de ráfia, que segura com firmeza contra o peito. Parece guardar ali uma fortuna, que se resume afinal a cinquenta mil escudos, enrolados e atados com duas tiras de nastro. Olha insistentemente para quem tem ao lado, receosa talvez de ser roubada do dinheiro que conseguiu amealhar ao longo de muitos anos.

     Homens e mulheres, velhos e novos, a fila é um cortejo de rostos dignos de registo. Muitos saem de casa pela primeira vez (e logo por tanto tempo!, e logo para tão longe!), para um país de que ouviram sempre falar, mas onde nunca estiveram.

     Só as crianças parecem despreocupadas, ignorando o que essa partida significa e há de influenciar o futuro próximo. Nos gritos e pulos que dão agarradas à mão do pai ou da mãe, revelam bem como estão emocionadas com a viagem aérea em perspetiva.

     Carregando a família atrás, Gonçalo atinge a cauda da fila, onde irá esperar. Com a aproximação do embarque, não tem já a certeza de nada. Confere de novo os documentos guardados na pasta. É isso: está tudo em ordem, como deve ser.

     Está tudo em ordem... está tudo em ordem..., mas a dúvida sobre o que irá acontecer depois, ou seja, sobre a data do regresso (quando?, daí a um mês?, um ano?); a dúvida sobre se aquela partida é ou não definitiva, se ele vai ou não deixar de vez a cidade onde nasceu e que conhece até ao recanto mais escuso — essa dúvida persiste. Parece até que aumentou, que é maior agora, quando não pode já voltar para trás.

     Gonçalo olha com atenção os rostos dos companheiros de fila e tenta descobrir se tais inquietações existem também em cada um. Será que todos partem apenas para fugir da guerra? Que não vão contentes e levam saudades?

     E Maria da Luz, a sua mulher? Igualmente natural de Angola, ela que casou e teve aí os filhos, como se sente nesse momento? Esperou algum dia ter de abandonar tudo à pressa, ser arrastada pelos acontecimentos, privar-se de muitas coisas de que gostava tanto?

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «Passageiro sem Bilhete»

 

publicado por olhoatento às 10:13
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