Sexta-feira, 3 de Junho de 2016

Reeditando (62)

 

62AGuerraDaIndependência

Quando o Huambo era Nova Lisboa...

 

A GUERRA DA INDEPENDÊNCIA

E A PARTIDA PARA PORTUGAL

 

     Quando os movimentos pró independência de Angola começaram a luta armada no terreno, os brancos aí residentes não queriam acreditar que os factos estavam a acontecer. Mas estavam realmente e iam marcar o princípio do fim de uma época.

     Intoxicada pela Imprensa e pela Rádio, que obedeciam aos ditames dos Serviços de Censura, essa parte privilegiada da po-pulação não dava conta do que se passava desde o fim da 2ª Grande Guerra: ou seja, de que a África pertencia aos africanos e de que ia deixar de ser o continente repartido de colónias. Embalada pelos discursos inflamados dos políticos, continuava convencida de que Portugal ia do Minho a Timor, que não alienava nenhum dos seus domínios ultramarinos e que não se rendia, como afirmava, às «mãos dos terroristas a soldo de Moscovo...».

     Os «terroristas» — foi com este nome que aqueles que combatiam pela libertação da Pátria começaram a ser chamados desde o início.

     Um clima de medo e suspeição tomou conta das cidades, portanto também de Nova Lisboa. Regressadas do trabalho, as pessoas entravam em casa mais cedo e ficavam aí por regra até à manhã seguinte. Em cada bairro, fizeram-se listas de voluntários e organizaram-se milícias de vigilância (dois homens por grupo, dentro de um automóvel, munidos de pistolas e lanternas), que patrulhavam as ruas durante toda a noite.

     Com as notícias que se davam ou inventavam continuamente, o clima e a suspeição foram aumentando e degeneraram na histeria coletiva: qualquer atitude incompreensível de um criado, de um cozinheiro ou de uma lavadeira, até então merecedores de confiança, denunciava um «terrorista», que era levado depois à Polícia e tinha de confessar aí o que andava a magicar contra os patrões...

     Dos paquetes que chegavam de Portugal (o Império, o Pátria, o Príncipe Perfeito), companhias de soldados vinham reforçar os efetivos militares já existentes. Salazar dissera «Para Angola, rapidamente e em força!», e isso era o que estava a suceder quase de semana a semana. Jeeps, camiões, equipamento bélico de toda a espécie era desembarcado em Luanda e ia depois para as frentes de combate.

     Passou o primeiro ano, depois o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto — e as pessoas converteram o medo e a suspeição iniciais na certeza de que a «tropa», como comentavam entre si, controlava a situação e não valia a pena pensar de mais no assunto.

     O desenvolvimento do território acompanhava o esforço de guerra: os setores de atividade económica atingiam níveis de produção records; quilómetros de estrada eram asfaltados e facilitavam agora os contactos entre as regiões; nas cidades, mas também nas vilas, a construção civil empenhava-se em aumentar o número de prédios de todos os tipos.

     Mas a guerra persistia nas matas e nenhum surto de progresso conseguia iludir esse facto; nas instâncias internacionais, os movimentos de libertação ganhavam definitivamente a simpatia do mundo. A África era (ou devia ser) para os africanos, e a teimosia do Governo de Portugal em contrariar a corrente da História estava desde o início condenada ao fracasso.

     A Revolução do 25 de Abril vem pôr termo a essa teimosia suicida e injusta, que fere as famílias em cada contingente embarcado. A Revolução anuncia na altura os seus objetivos: devolver a Democracia ao país, restaurar as liberdades cívicas, acabar com o lápis azul da Censura — reconhecer o direito legítimo dos povos colonizados à autonomia e independência.

     Com mais ou menos relutância, uns de imediato, outros mais tarde, os brancos percebem finalmente que têm de ir embora. Em caixotes que vão armando com pranchas ainda verdes de madeira de eucalipto (o bater dos martelos nos quintais ouve-se o dia inteiro e entra pela noite adiante), metem os seus pertences à pressa, sem outro critério que não seja o de levar tudo o que é possível.

     A convicção mantida durante tantos e tantos anos de que Portugal era uno e indivisível, como se ensinava nos manuais escolares, desaparece com a marcação da data da independência. Os obstinados, que não acreditam nem querem acreditar que se enganaram ingenuamente; os que não armam caixotes com madeira de eucalipto nem querem ouvir o bater dos martelos nos quintais; quem continua com a ideia de que aquela terra é sua e de que não a pode abandonar; quem insiste em não apanhar o último avião da ponte aérea — deverá ainda esperar alguns meses, até se convencer de que tem mesmo de recomeçar a vida em outro sítio...

 

Inácio Rebelo de Andrade

do livro de memórias «Quando o Huambo era Nova Lisboa»

 

publicado por olhoatento às 10:16
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