Terça-feira, 10 de Maio de 2016

Reeditando (61)

 

617DavidBernardinoFrancisco

David Bernardino, por Francisco G. Amorim

 

DAVID BERNARDINO E A FUNDAÇÃO DO MDH

 

     Branco natural da terra, sobrinho de Sócrates e Alexandre Dáskalos (o primeiro exilado até então no estrangeiro, o segundo poeta já falecido e autor de versos em defesa do homem negro, que «leva porrada nas mãos e vai na rusga trabalhar»), David Bernardino foi quem liderou a fundação do MDH [Movimento Democrático do Huambo].

     Com pouco mais de metro e meio de altura, faltava-lhe tanto de corpo quanto lhe sobrava de generosidade. Para Ângela, sempre judiciosa no julgamento dos amigos, ele era um «pequeníssimo físico e uma grandessíssima alma».

     Olhos vivos, cabelo curto, dentes de rato num sorriso constantemente aberto, tinha o dia cheio de ocupações. Porque era médico, consultava e acompanhava doentes, ia depois para o Centro de Pediatria que instalara a expensas próprias no bairro de Cacilhas. Passava aí horas sem conta, de estetoscópio ao pescoço, auscultando bebés e mulheres grávidas que não podiam pagar o diagnóstico e a prescrição, mas que não deixavam por isso de levar consigo os fármacos necessários.

     David conhecia, era colega, diziam até que amigo de Agostinho Neto; falava dessa relação com naturalidade, observando que também ele, tal como Miguel e outros com quem privava regularmente, estava convencido de que só o MPLA serviria o povo angolano.

     Se era de facto uma grandessíssima alma, como Ângela de­clarava, não era ingénuo nem distraído, pelo que intuía bastante bem o que pensavam as pessoas que encontrava na rua.

     Não ignorava que muita gente naquela cidade, ainda surpreendida com o 25 de Abril e intoxicada durante anos pela propaganda da PIDE, identificava o MPLA com os «comunistas», esses «cavalheiros instruídos por Moscovo», com os quais estaria certamente mancomunado para «correr com os brancos dali para fora».

     Alguns vaticinavam com voz alterada:

     — O que os gajos querem é dar-nos um pontapé no rabo, mandar-nos para algures, sem direito sequer a levar connosco a mobília que pusemos em casa.

     Observavam que a FNLA e a UNITA eram diferentes. Pelo menos, davam mostras de ser:

     — Têm outros aliados e dão outras garantias...

     Não sendo ingénuo nem distraído, David achava que era urgente esclarecer e desmentir tal equívoco.

     O MDH teria pois essa missão.

    

Inácio Rebelo de Andrade

do livro de contos «Quando as rolas deixam de arrulhar»

Edições Colibri, Lisboa, 2010

 

publicado por olhoatento às 11:23
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