Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Reeditando (59)

 

59SaudadesDeLuena

«Lembrava-se dos Natais vividos no Chinguar e dos muitos

presentes que recebia na altura»

 

SAUDADES DE LUENA

 

     Pela primeira vez desde que se conhecia, Carolina preparava-se para passar o Natal fora de casa. Não se queixava dos seus anfitriões, especialmente de Leonor, que fazia tudo para a ajudar na situação e lhe mitigar a tristeza trazida por aquela quadra.

     Lembrava-se dos Natais vividos no Chinguar e dos muitos presentes que recebia na altura: dos pais, de Júlio Pires, de Bebiana, até de Gungacusse, que se esmerara uma vez em construir uma gaiola em carolo de milho, com um bico-de-lacre lá dentro. Tão longe daí, não eram esses e outros brinquedos que recordava agora, mesmo os mais refinados (como «Milu», a boneca de cabeça, braços e pernas de porcelana, os lábios e as bochechas vermelhas, as pestanas reviradas, que subiam e desciam nas pálpebras); não era sequer a alegria imensa de ficar com tantas coisas lindas — mas o sorriso e o brilhozinho dos olhos de Abílio e de Luena, que perguntavam:

     — Era isto que querias?

     Sentia-se tão excitada, tão sem mãos suficientes para pegar em todas as prendas ao mesmo tempo, que respondia apenas:

     — Era, era!

     Os pais exultavam de contentes:

     — Ainda bem.

     O sorriso de Luena... Os anos passavam, uns a seguir aos outros, e Carolina dava conta de que a imagem da mãe guardada na memória perdera já a nitidez de outrora, porque se esfumava e ia desaparecendo, cada dia mais, cada dia mais, assim à maneira de uma mulemba frondosa por entre o cacimbo das manhãs de julho, que a gente vê bem quando está perto, com o tronco, os ramos, as folhas, mas mal quando se afasta, cada vez pior, cada vez pior, tragada pela bruma.

     O que recordava ainda bem era a voz, que cantarolava melopeias infindáveis e palavras meigas; essa voz que nunca se exaltava e chamava a filha de «minha fíria» e o marido de «meu Abírio»; a voz que ouvia logo que acordava, mas também ao mata-bicho, ao almoço e ao jantar, pelo dia fora, quando saía ou entrava em casa; essa voz que era um gorjeio de catuítuí, e que num domingo trágico, ao fim da tarde, se calara para sempre por baixo da carrinha Ford.

     Essa voz que diria agora? Que elogio doce soltaria dos lá­bios ao perceber como o ser que transportara no ventre havia crescido e deitara aquele corpo adulto sem qualquer defeito?

     O sorriso de Luena... O sorriso que a filha teimava em não querer esquecer, e tanto que o evocava com frequência em muitas páginas do seu diário, para mais tarde, lá para diante, quando fosse mãe por sua vez, o descrever com toda a fidelidade possível.

     O sorriso de Luena... Esse mesmo que o pai guardava consigo no íntimo, com o qual sonhava certamente à noite, e que nunca desejara trocar por outro. Por nenhum!

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «A Mulata do Engenheiro»

 

publicado por olhoatento às 12:51
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