Sexta-feira, 11 de Março de 2016

Reeditando (58)

 

58OAnoDeÁfrica

 

O «ANO DE ÁFRICA»

E O INÍCIO DA GUERRA COLONIAL

 

     Chamado o «ano de África», porque dezassete ex-colónias do continente se tornaram então independentes, 1960 foi também para Angola o princípio de uma sucessão importante de acontecimentos.

     Preocupado com tantas independências, Oliveira Salazar tentou convencer o mundo de que os territórios ultramarinos portugueses eram já suficientemente autónomos, pelo que dispensavam outra forma de emancipação. Como lembrava, todos eles gozavam do estatuto administrativo de «Províncias», beneficiando dos direitos correspondentes.

     Empenhou-se afincadamente na defesa dessa teoria, mas sem qualquer sucesso. As potências superinfluentes no concerto das nações, como os Estados Unidos, a União Soviética, a Inglaterra e a França, questionavam a justificação apresentada, em que não acreditavam.

     Coerente com a sua tese, e depois de dois militares, o Capitão Agapito Silva Carvalho e o Tenente-coronel Sá Viana Rebelo, o Presidente do Conselho nomeou um civil, concretamente um magistrado, para o cargo de Governador-Geral de Angola.

     Desde o dia em que chegou, o doutor Silva Tavares procurou inteirar-se dos problemas existentes no território que ia ter a seu cargo. Homem de leis, atento, cordato e inteligente, buscou conhecer a terra que devia dirigir, para avaliar o como, o quando e o que fazer em conformidade. Mas era tarde e o tempo escasseava.

     Em 4 de fevereiro de 1961, nacionalistas angolanos, alguns dos quais militantes do futuro MPLA, assaltaram em Luanda a Casa de Reclusão Militar e a Cadeia Civil de São Paulo, tentando libertar os presos políticos aí detidos. Elementos brancos das forças da ordem morreram na altura; quando foram a enterrar no dia seguinte, soaram tiros no cemitério, gerou-se uma tensão emocional descontrolada, vários negros foram linchados de seguida.

     Silva Tavares avaliou mal o sucedido. Informado em tom jocoso pelas chefias da guarnição local de que o assalto aos estabelecimentos prisionais se resumia a uma rebelião de catanas e canhangulos, foi aconselhado a reagir, mas a não dar importância ao caso. Com a detenção daqueles que eram considerados especialmente responsáveis pelo incidente, minimizou a dimensão real da situação: ou seja, de que os nativos da Colónia pegavam em armas contra os colonizadores, iniciando assim a luta pela sua libertação.

     O Governador-Geral esperou apenas um mês para perceber que se enganara ou que fora enganado. A 15 de março, grupos ativistas da UPA infiltraram-se no norte de Angola pela fronteira com a República do Congo e atacaram aí diversas fazendas de café. Bárbara e indiscriminadamente, assassinaram brancos, negros e mestiços.

     A Imprensa e a Rádio relataram a chacina ao pormenor: denunciaram então que bandos de terroristas tinham trucidado gente indefesa, sem olhar a cores nem a raças (homens, mulheres e crianças), perturbando a paz das populações. Reclamavam medidas urgentes contra o facto, de modo a abortar a insurreição. Incitavam toda a gente, afirmando que nenhum patriota digno deste nome poderia tolerar os crimes cometidos.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «Na Babugem do Êxodo»

 

publicado por olhoatento às 15:50
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