Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Reeditando (57)

 

57ATentaçãoDeMandarEmboraOsCarpinteiros

«Maria da Luz a fazer as malas e a meter aí as roupas dos guarda-fatos»

 

A TENTAÇÃO DE MANDAR EMBORA

OS CARPINTEIROS

 

     Depois do susto por que Pedro passou em frente da delegação da FNLA; depois de outras provações experimentadas posteriormente, Gonçalo achou que não devia mais sujeitar Maria da Luz e os filhos àquele clima constante de risco.

     Não queria também ser ingénuo nem armar em herói. A sua filiação no MPLA era conhecida da FNLA e da UNITA, portanto indesejável no Huambo, já que ambas as organizações garantiam por todo o lado que iam terminar ali com a presença dos «comunistas netistas». O que cumpriam efetivamente com as perseguições e execuções que levavam a cabo.

     Gonçalo tinha ainda de partir porque se sentia confuso. Confuso e cético. Muitas questões com que se interrogava não obtinham resposta.

     Ele estava já pouco seguro dos caminhos que a independência iria percorrer daí em diante. Percebia pela primeira vez que os três Movimentos, todos eles, sem exceção, continuavam de armas aperradas, não para lutar agora contra o inimigo de ontem, mas uns contra os outros; não pela promoção e o serviço do povo, mas pelo poder e o protagonismo dos seus líderes, ou se calhar, o que era bem pior, pela satisfação de interesses e ambições de terceiros.

     Acalentada durante tantos anos, por onde andava nesse momento a esperança de que as mortes nas matas, as detenções nas cadeias, os exílios no estrangeiro, tudo isso se justificava quando o futuro prometia dirimir o sofrimento dos explorados, dos injustiçados, dos humilhados, recuperando a dignidade perdida e o direito de ser livre? Por onde andava essa esperança que alimentou até os mais pessimistas nos momentos de dúvida e os mais fracos nas horas de medo? Por onde andava ela que garantiu sempre que Angola seria para todos os angolanos, não importava de que cor, nem de que credo, nem de que filiação partidária, porque todos eram filhos da terra e não podiam ser alienados dessa qualidade? Isso tinham sido, ou eram, ou continuariam a ser apenas declarações de conveniência, muito louváveis, muito mobilizadoras, mas sem consequências práticas? Tudo não passava então de um embuste, de uma espécie de melopeia cantada repetidamente para enganar os crédulos e os lorpas?

     Quando avisou os seus camaradas de que iria embora para Portugal, Gonçalo foi acusado do que estava à espera: que não fazia bem, que desertava e virava as costas à luta. Aceitou sem protestar essa crítica; teve mesmo de ouvir que se assustava com pouco e que não tinha coragem. Percebia... Não tentou desculpar-se, nem sequer justificar-se, porque achava talvez que merecia aquele julgamento.

     As semanas seguintes foram cruéis. Quando chegava a casa e dava conta do desarrumo que ia por lá (os carpinteiros no quintal embalando os livros nos caixotes de pranchas de eucalipto, Maria da Luz a fazer as malas e a meter aí as roupas dos guarda-fatos, Pedro, Marta e Vicente correndo excitados com tanta confusão), a sua tristeza e vergonha tornaram-se maiores. Era como ter de beber de novo o óleo de fígado de bacalhau receitado pelo Dr. Abreu Freire contra o raquitismo muitos anos atrás: bebê-lo como em criança, logo no início do Cacimbo, de nariz apertado, com a repugnância devida ao sabor repulsivo.

     Com a intuição habitual das situações que mexiam com as pessoas, Maria da Luz avaliava bem como o marido devia estar a sofrer. Respeitava essa mágoa e esforçava-se por não falar no assunto. Se era preciso, referia a partida para Portugal naturalmente, sem observações a propósito, fingindo ignorar que nada havia de especial entre o presente que estava a acontecer e o futuro que estava para vir.

     — Queres levar esta pasta tão velha?

     Ele respondia evasivamente; encolhendo os ombros, entaramelava as palavras:

     — Não sei ainda... Talvez... Posso levar... Tu é que sabes...

     Maria da Luz decidia:

     — Então fica. Não vale o espaço que ocupa. Em Lisboa, compras outra.

     Perguntava:

     — Está bem?

     Gonçalo concordava. Mas sem convicção, porque o que ele preferia dizer era que não levava a pasta, nem essa, nem outra qualquer; que não levava os livros, nem os discos, nem nada — porque aquilo que queria de facto era ficar.

     Mais do que uma vez, teve a tentação de mandar embora os carpinteiros, desencaixotar tudo o que estava já embalado, meter-se no automóvel, ir rapidamente à Agência Campeão e devolver os bilhetes de passagem que guardava consigo.

 

Inácio Rebelo de Andrade

do romance «Passageiro sem Bilhete»

publicado por olhoatento às 10:09
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