Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016

Reeditando (56)

 

56AdoraraVirParaÁfrica

«O sabor forte das frutas, ora adstringente nos loengos, ora doce nas mangas»

 

ADORARA VIR PARA ÁFRICA,

ONDE SE SENTIA BEM

 

     No Instituto de Investigação Agronómica sediado na Chianga, na Divisão de Genética e Melhoramento, Miguel levava a cabo um programa de melhoramento de plantas que começava a dar resultados dignos de registo.

     Haviam passado sete anos que chegara à cidade, criara o seu núcleo de amigos, tivera a felicidade de assistir ao nascimento de quatro filhos. Com a mesma fertilidade de uma lavra que não se cansava de produzir milho (a metáfora não era sua, mas de um colega dado à literatura), a mulher dava à luz periodicamente mais um bebé, saudável e também franzino como os anteriores.

     Ângela adorara vir para África, onde se sentia bem, não obstante as dificuldades que enfrentava ao gerir um orçamento doméstico com que devia suprir as necessidades de uma família que não parava de aumentar. Como tinha a franqueza de reconhecer, o marido ganhava bem; mas o ganhar bem de um engenheiro agrónomo da época era relativo, e mais relativo ainda quando tinha de chegar para dar de comer, vestir e comprar brinquedos para tanta garotada.

     De muito nova, primeiro criança, depois já rapariga, habituara-se a aceitar como natural não variar de roupa com a frequência das suas amigas mais endinheiradas. Considerava-se assim suficientemente habilitada para viver «com conta, peso e medida», como dizia, e esse costume trazido do passado, de usar quase sempre os mesmos vestidos e os mesmos sapatos, continuava a mantê-lo agora sem qualquer espécie de frustração. Importava-se pouco com o facto, desde que não faltasse aos filhos com aquilo que considerava indispensável. Em relação a eles sim, era intransigente na medida do possível.

     Com o seu comportamento, a sua simplicidade, a sua delicadeza, conseguira rapidamente despertar o respeito de todos com quem privava, que a admiravam e lhe tinham afeição.

     Adorara realmente vir para África, onde tudo, desde o cheiro da terra que subia no ar com as primeiras chuvas de setembro, no fim do Cacimbo; da paisagem que podia ver de um lado e do outro da estrada quando ia de automóvel ao Lobito, a Sá da Bandeira ou a Luanda; do sol que brilhava abundante no céu azul do Planalto; do sabor forte das frutas, ora adstringente nos loengos e nas nochas, ora doce nas mangas e nas papaias; das cores luxuriantes e variegadas das plantas nos jardins; do trilo dos martrindindes nos quintais a anunciar o princípio da noite — tudo a satisfazia e lhe dava um prazer imenso usufruir.

     Paradoxalmente, concluía isso sempre com alguma mágoa, porque toda essa satisfação, como Miguel lembrava amiúde, não devia cegar os olhos nem adormecer a consciência de ninguém para o que havia também aí de inaceitável.

     Católica praticante, ia todos os domingos à missa, à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, e que presenciava lá? A mesma cena de sempre: os brancos nas filas da frente, os negros nas filas de trás, como se uns e outros, até num templo de Deus, tivessem direitos e privilégios diferentes.

     Sem esforço, bastando para tanto abrir os olhos, Ângela dava ainda conta de outras constatações semelhantes, que vinham como que obscurecer e interpelar esse seu deleite de viver naquela terra.

     Mais radical como de costume, Miguel garantia que era por causa dessas desigualdades, de uns terem muito e outros pouco ou nada; dessa repartição iníqua de prerrogativas e bens baseada na cor da pele; que era precisamente aí que residia a perversidade do regime colonial. E que não lhe viessem observar a propósito que o mesmo era em Angola «mais macio», «mais brando», «mais tolerante» do que outros praticados pelo mundo fora.

     Contrapunha que o colonialismo era o colonialismo, não importava onde nem imposto por quem; que não havia colonialismos melhores nem piores, porque todos, sem nenhum exagero, eram cruéis:

     — Ponto final, parágrafo!

     Se alguém contra-argumentava, citando os exemplos inegavelmente piores da Inglaterra, da Bélgica, da França, o apartheid da África do Sul, ele recorria à expressão brasileira que considerava adequada:

     — Conversa para boi dormir... Só serve para enganar os tolos. Ou os ignorantes.

     Bem-documentado, com artigos da UNESCO que misturava na pasta de cabedal com outros de natureza científica, provava o que afirmava, apresentava quadros, tabelas, números, que serviam para corroborar a conclusão:

     — Conversa para boi dormir... Só serve de facto para enganar os ignorantes.

     Abria uma exceção para Norton de Matos, que excluía das suas diatribes. Prestava-lhe homenagem e admirava-o por se ter oposto a Salazar — sobretudo por ter tido uma visão de África avançada para a época:

     — Mesmo com oitenta e dois anos, foi uma pena o velho meter-se em Ponte de Lima e desistir da luta.

     Especulava:

     — Talvez isto evoluísse de outro modo e não chegasse ao que chegou. Quem sabe?...

 

Inácio Rebelo de Andrade

do livro de contos «Quando as rolas deixam de arrulhar»

Edições Colibri, Lisboa, 2010 

 

publicado por olhoatento às 09:24
link do post | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Mudança de local

. Morte do Autor

. JESUS RESSUSCITOU!!!

. Sobre alguns dias do dia ...

. O planeta que habitamos (...

. Sobre alguns dias do dia ...

. Em versos me revelo (74)

. Sobre alguns dias do dia ...

. Apresentação de «Como Jog...

. Da Angola que permanece n...

. Reeditando (73)

. Sobre alguns dias do dia ...

. Melhor a imagem do que a ...

. O planeta que habitamos (...

. Convite para lançamento d...

. Sobre alguns dias do dia ...

. Em versos me revelo (73)

. Sobre alguns dias do dia ...

. Da Angola que permanece n...

. Sobre alguns dias do dia ...

. Reeditando (72)

. Melhor a imagem do que a ...

. Sobre alguns dias do dia ...

. O planeta que habitamos (...

. Sobre alguns dias do dia ...

. Em versos me revelo (72)

. Da Angola que permanece n...

. Reeditando (71)

. Melhor a imagem do que a ...

. Especulações vocabulares ...

.entradas no blog

Free track counters
Lovely Counter

.posts visitados

Free track counters
Lovely Counter

.meteorologia

.favorito

. Especulações vocabulares ...

. Melhor a imagem do que a ...

. Da Angola que permanece n...

. No momento da morte de Ne...

. Reeditando (6)

. A preto e branco (5)

. Em versos me revelo (5)

.tags

. evocação

. ficção

. poesia

. recordações de angola

. temas em análise

. todas as tags

.arquivos