Sábado, 10 de Dezembro de 2016

Na vazio feito silêncio e desordem

 

 

NÃO É A SENSAÇÃO VAGA DO PASSAGEIRO

EM TRÂNSITO, MAS QUASE E OUTRA…

 

por:

Esaú Dinis

 

Não é a sensação vaga do passageiro em trânsito, a aguardar o momento de seguir a outro destino. Na verdade, não urge a pressa de chegar, nem há a perceção do quando nem do para onde. É o estar fora da medição das horas e das distâncias. É o mergulhar numa lógica sem partidas nem chegadas.

 

Também não é a atitude indecisa de quem tem de escolher. Pois a realidade e sua circunstância baralharam os dados. Pode subsistir o sentimento de liberdade de opção, mas já não se aplica, de modo que aquilo que era certo, no lugar e no toque, na luz e na contraluz, deixou puramente de fazer sentido porque o contexto é outro, ou tocado por abrupto acaso, inesperado.

 

Fica-se a meio caminho, entre o que era e a avalanche que tudo desmoronou. Impõe-se a consciência de termos acordado num diferente universo, provisório, sem referências nem caminhos, não sabendo se tem ponte para nova margem.

 

Com o apagamento do lugar de aconchego de onde havíamos partido, sem o esteio do que somos, temos e projetámos, enredados nos fios de uma engrenagem que nos possui e despidos do desejo de impossível regresso, o sentimento que se impõe é o da entrega ao transitório.

 

Tem tudo de barco sem amarras, perdida a rota e companheiros. Para trás, não resta caminho. Pela frente, são demais as incógnitas, simples corredor, sem porta ao fundo, sem manual de instruções.

 

Tornaram-se incomunicáveis a linguagem e propósitos, nós, o outro e companhia, passado e futuro-presente.

 

Estamos inteiramente sentados no momento, acolhendo o acontecer como se fora o derrame de rio que se espraia por margens e labirintos, esquecido da foz, longe o oceano.

 

É esse estado efémero de entrega ao precário, é o sermos e estarmos de passagem, sem um onde e sem qualquer vislumbre dos dias para depois, é este tempo sem tempo que nos desenha como inesperado túnel sem passagem, enigmático elevador sem portas nem andares.

 

Será que o ato de aceitação inteira do acontecido …; será que a serenidade de vivermos totalmente ao tic-tac dos dias sem avançar porquês nem revolta …; será que decidir sobreviver sem geografia nem bússola …; será que tudo, simplesmente isto, seja suficiente para nos trazer de volta a paz e a esperança de reencontrarmos, nessa entrega total e sem subterfúgio, a quietude do rumor das folhas de outono tapetando o chão, e descobrirmos que afinal, desde sempre, fomos apenas transeuntes de passagem, tão desprendidos ao pôr-do-sol quanto o éramos na alvorada primeira.

 

Não é a sensação do passageiro em trânsito, mas quase e outra … ; esperando que adivinhemos o sentido de sermos vivos e inventemos a disponibilidade para retomar viagem, outra e inesperada, somente com os passos de transeuntes, trivialmente de passagem, em trânsito existencial.

 

E então, no vazio feito silêncio e desordem podem adivinhar-se as coisas simples e banais, o acordar dos objetos à espera, o encontro improvável, a reinvenção das rotinas que amparam, a palavra que se levanta em afeto mudo, o gesto que aproxima e marca território, a entrega ao natural, o olhar que escuta e sonha, o invisível onde se esconde o essencial.

 

Queluz, 10 de outubro de 2016

Esaú Dinis

publicado por olhoatento às 22:58
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