Sábado, 9 de Janeiro de 2016

Contos revisitados (56)

 

56AHumildadeDeMargarida

«Referia então que aqueles brincos eram joias antigas de família»

 

A HUMILDADE DE MARGARIDA

 

1

 

     MARGARIDA NASCEU em berço de ouro, na mansão enorme que o pai herdara dos avós, e onde muita gente grada, do Comércio, da Indústria e das Finanças, lhe veio trazer presentes e prestar homenagens.

     Com o seu nome de flor, Margarida cresceu linda como as suas homónimas. Aos doze anos, era uma perfeição: os cabelos negros cor de ébano, a boca que nem um botão de rosa, os olhos tão verdes como duas azeitonas, a pele macia de cetim. E os dentes? Todos eles alinhados e brancos, muito brilhantes, como fiadas de pérolas.

     Quem a via pela primeira vez e lhe percebia tais atributos exclamava:

     — Que menina tão formosa!

     Tinha razão. E se convivesse de perto com essa menina, poderia acrescentar que ela era tão bonita de corpo como de alma. E referir ainda que era muito modesta, parecendo até que se envergonhava de tanta beleza.

     O pai e a mãe queriam que a filha se orgulhasse dos seus dotes e da sua condição; que fosse menos discreta e sóbria nos seus procedimentos; que tratasse com a distância protocolar o pessoal doméstico, ao qual devia manifestar os seus direitos e as suas prerrogativas.

     A mãe pedia, mas numa voz tão determinada que parecia mandar:

     — A menina não pode portar-se assim.

     O pai concordava:

     — Não pode, não.

    Margarida sorria. Por respeito, calava consigo o que pensava do assunto: que os homens podem ser ricos ou pobres, patrões ou criados, mas que todos eles são pessoas, e que isso de ter dinheiro nos bancos não lhes muda a natureza nem os torna diferentes. Ou seja, superiores.

     Se escutassem essa opinião, os pais ficariam deveras preocupados. Provavelmente de boca aberta, olhariam um para o outro, arrepanhariam os cabelos, concluindo com espanto que a fi­lha era uma rapariga ingénua e que sabia pouco da vida. Ou então, que regulava mal da cabeça.

     Podia lá ser!...

 

2

 

     COM O SEU património valioso, os pais de Margarida eram venerados pelos amigos, especialmente por aqueles que esperavam tirar dessa amizade algum proveito.

     Uma herdeira assim abonada de bens, ainda por cima sem irmãos com quem repartir a herança, despertava a ambição de muitas mães com filhos para casar. As mais calculistas conjeturavam consigo que um enlace tão vantajoso garantiria à descendência (e a elas próprias também) um futuro desafogado. Coisa que nenhuma deveria nem gostaria de rejeitar.

     Três ou quatro vezes por ano, um desses filhos solteiros tentava conquistar o coração de Margarida (e com o coração, as demais benesses que viriam a seguir). Chegava carregado de presentes, que ia oferecendo e classificando de preciosidades raras. Com o discurso bem decorado, referia então que aqueles brincos, ou aquele anel, ou aquele colar, eram joias antigas de família, passadas de geração em geração, que encontravam finalmente a destinatária merecida.

     Margarida ouvia com desagrado a explicação que soava a falso. Já farta de fingir que acreditava, não se continha e indagava:

     — Por que se desfaz então de um valor tão estimável?

     O interpelado emudecia. Não esperava nada por aquela pergunta. De joelhos no chão, o gesto largo, imitando os gentis-ho­mens medievos, titubeava uma resposta:

     — Porquê? Ora... ora... Porque quero obsequiar quem amo!

     Margarida adivinhava ali outra mentira. Amar?! Sem mais nem menos?! De súbito, como nos romances?! Os dois não se conheciam sequer...

     Ia ter com os pais e rejeitava o pretendente:

     — Ele mente.

     Desgostosa por se saber cortejada, não pelo que era, mas pelo que tinha, repetia:

     — Mente! Mente!

     Uma criada velha, que a trouxera ao colo e a ensinara a falar e a andar; que viera do campo criança e nunca aprendera a linguagem polida da cidade, concordava. Achava que aquilo era um «aproveitamento», uma «interesseirice», um «engodo», só bom para enganar as «lorpas».

     Com a franqueza do costume e os termos julgados oportunos, acrescentava:

     — Mente, mente, que nem um saco roto. Com quantos dentes tem na boca!

 

3

 

     JÁ LINDA como criança, mais linda ainda como rapariga, Margarida era aos dezanove anos um deslumbramento como mu­lher. Todos os seus atributos haviam refinado com a idade.

     A concordância era unânime e não havia elogios que lhe negassem:

     — Uma maravilha!

     — Um assombro!

     — Um enlevo para os olhos!

     Ela sabia desses comentários, mas ficava indiferente. Para quê julgar que merecia tanta admiração? Ufanar-se dos seus atributos? A beleza era efémera, durava uns anos, a morte vinha por fim, o corpo voltava à terra, para ser pasto dos vermes. Como esquecer por um momento tal contingência?

     Nos banquetes, nas receções, nas festas que ocorriam na mansão, os convidados vinham cumprimentar os anfitriões. Aos beijos, aos abraços, aos apertos de mão, conforme a intimidade, repetiam sem se cansar quanto se sentiam reconhecidos por estar ali. Que era um prazer!, uma satisfação!, uma honra!

     Margarida nunca estava junto dos pais nessa ocasião: ficava lá atrás, tentando passar despercebida, porque se achava sem direito àquelas reverências.

     Os convidados voltavam para as suas casas e contavam a toda a gente o que tinham presenciado, ou seja, que não haveria talvez no país inteiro uma jovem tão rica, tão bonita, mas também tão recatada.

     Sentenciavam:

     — É de mais!

     — Só quem vê acredita!

     Diziam bem: só quem via acreditava. Alguém merecer ficar na primeira fila e colocar-se na segunda; ser formosa e não se envaidecer da sua beldade; ter fortuna e não se aproveitar da sua riqueza. Isso era raro e espantava qualquer um.

     — É de mais! É incrível!

     Regressados a casa, os convidados punham nestas exclamações a surpresa que experimentavam pelo facto. Não conseguiam ou não queriam compreender o que tinham visto:

     — Nã! Nã! Ali há mistério certamente! Há, há...

     Ressabiados e pensando certamente nos filhos preteridos, alguns mais maldosos insinuavam:

     — A rapariga é estranha. Afasta-se das pessoas, baixa os olhos...

     Concluíam:

     — É bem-parecida, mas esquisita. Se calhar, não gosta de rapazes...

 

***

 

                                                Chegada a sua hora,

                                                Margarida morreu

                                                e foi para o Paraíso

                                                gozar a sorte que mereceu.

 

                                                De sorriso na boca

                                                e bordão na mão,

                                                Deus lhe deliciou o coração.

 

Inácio Rebelo de Andrade

in Os Pecados do Diabo e as Virtudes de Deus

Novo Imbondeiro, Lisboa, 2008 (versão revista pelo autor)

 

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publicado por olhoatento às 10:51
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