Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Reeditando (6)

 

Esaú Dinis

 

ESCUTANDO POR DEBAIXO

DOS PASSOS E POR DENTRO DAS ÁGUAS

por:

Esaú Dinis

 

       Lembro-me de um filme em que havia uma ponte sobre um rio e alguém passeando de um lado para outro. Os seus passos ecoavam na distância. Nada mais se ouvia.

     Guardava, por isso, na imaginação, a ideia de que passando, numa ponte de madeira, com pés, sapatos e tudo, uma e muitas pessoas, nada mais se ouviria do que o som soturno dos pés arrastados.

     Assim julgava, até hoje.

     Vou explicar-me: Houve uma procissão nocturna no Belize,em terras de Cabinda. Corriao ano de 1967.

     A determinada altura, encontrava-me à frente de todos, junto da cruz e dos sacristães, que abriam caminho com duas velas acesas. Íamos atravessar uma larga ponte de madeira.

     Preparei-me para os passos martelados das duas filas de centenas de pessoas.

     Escutei atentamente. Mas só ouvia o escorrer cantante do rio, convidativo pela frescura e pela imagem de limpidez em que se espelhavam as velas.

     Mesmo quando passaram as pessoas descalças e vieram os sapatos e as botas, para além da surdina do compasso, o que transparecia era o rolar macio, como uma fonte, das águas lá em baixo, entre a verdura negra das margens.

     As velas de centenas de homens e mulheres seguiram adiante, como estrelas arrebanhadas nos caminhos de terra, soltas em pequenas nuvens de poeira, quais bolas de sabão. E a ponte lá ficou, porventura, mais enamorada da natureza, cantando insistentemente.

     Houve um tempo em que, na cidade de Angra, estávamos a cumprir um ano de Pós-Seminário, quando voltávamos do cinema, já noite feita, nos preocupávamos em passar despercebidos no abrir das portas e no subir das escadas.

     As portas sempre levavam um tempo infinito a fechar em cautelas acolchoadas de silêncio. As escadas eram ganhas degrau a degrau em bicos de pés, os sapatos nas mãos, não fosse Monsenhor Pereira da Silva acordar, e com a sua ironia fazer qualquer insinuação, à hora do pequeno-almoço.

     Por mais cuidado que levássemos, sempre o trinco rangia, sempre as tábuas barafustavam contra aquele regresso quase clandestino.

     Por debaixo da escada, ou frente a frente com cada quarto, a natureza parecia ter perdido a harmonia.

     Dentro de casa, tudo eram barulhos. Lá fora, na rua, nunca passava um carro na hora de fechar a porta.

     Na vida corrente, os ruídos desaparecem, como se fossem absorvidos pela rotina. Mas se entrarmos em atitude de espera e de escuta, logo cada som desbobina um discurso.

     Numa floresta, tudo fala, como se fora orquestra. Na cidade, barulhos metálicos e gritarias estridentes ensurdecem-nos, como um tapume de silêncios.

     Em Belize, escutava a sonoridade tépida das águas, cantarolando debaixo da ponte.

     Na cidade, tenho de forçar-me a ouvir por dentro das águas e por cima e por debaixo das pontes.

 Esaú Dinis

 

(Texto base, escrito no Belize, Cabinda, em 16 de Agosto de 1967, para o programa radiofónico: «Hoje é um novo dia»)

 

publicado por olhoatento às 07:03
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